Causos de Minas

Gasolina tentou morder o peixe

  • 23 de janeiro de 2026
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Na volta da pescaria, o peixe era grande demais, a estrada era longa e o Gasolina decidiu conferir se aquela história também servia de almoço.

Gasolina tentou morder o peixe

Zé Lombriga ainda nem tinha terminado de amarrar o peixe direito na moto quando percebeu que o Gasolina tava quieto demais. E cachorro quieto demais, fi, nunca é bom sinal.

O peixe era grande. Grande daquele jeito que começa a incomodar o ego dos outros. Amarrado atravessado na garupa, a cabeça pra um lado, o rabo pro outro, parecia que a moto tinha criado escamas.

Gasolina rodeava a cena em silêncio, farejando o ar como quem lê um livro invisível.

— Não é pra mexer, viu? — avisou Zé Lombriga. — Esse peixe é só pra olhar.

Gasolina fingiu que entendeu. Sentou. Olhou pro horizonte. Abanou o rabo devagar, daquele jeito dissimulado.

A moto começou a andar na estrada de terra, levantando poeira. A cada sacolejo, o peixe balançava um tantinho. E a cada balanço, o olho do Gasolina brilhava mais.

— Ô Gasolina… — alertou Zé, sem virar o rosto. — Isso não é osso, não.

Foi na primeira curva que aconteceu.

Gasolina deu um pulo certeiro e nhac — tentou abocanhar o peixe bem na lateral, como quem testa maturidade. A moto deu uma sambada leve.

— Ô desgraça! — gritou Zé Lombriga, freiando no susto. — Ocê ficou doido, fio!?

Gasolina caiu no chão, levantou na hora e fez aquela cara clássica de cachorro injustiçado, como quem diz: “Só tava conferindo”.

Zé desceu da moto, olhou o peixe, olhou o cachorro e decretou:
— Tá vendo? Peixe grande demais chama atenção até de quem não foi convidado.

Amarrou melhor, deu dois nós extras e ainda passou a mão na cabeça do Gasolina:
— Isso aqui não é lanche. É história.

Gasolina suspirou fundo, deitou na sombra e ficou só acompanhando com o olhar, resignado. Mas toda vez que a moto arrancava, ele levantava a cabeça, só pra garantir que o peixe ainda tava ali.

Quando chegaram perto da vila, um vizinho gritou:
— Ô Zé! Que peixe é esse!?

Antes mesmo de Zé responder, Gasolina latiu duas vezes, como quem se apresentava:
“É nosso.”

Zé riu sozinho e falou baixo:
— No interior, até cachorro quer participar da vantagem.

E desde aquele dia, toda vez que alguém conta a história do peixe grande, sempre tem um complemento obrigatório:

— O peixe era grande…
— Mas o cachorro tentou morder.

Porque em Minas, fi,
história boa nunca anda sozinha.
Sempre tem um cachorro pra tentar melhorar. 🐕🎣😄

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