O Dia em que a Viola Ganhou Mais Aplauso que o Dono
- 24 de janeiro de 2026
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Quando até a viola rouba a cena, o violeiro aprende a rir de si mesmo.
Quando até a viola rouba a cena, o violeiro aprende a rir de si mesmo.
Zeca Violeiro sempre dizia que a viola dele não era instrumento.
Era parente distante.
Daqueles que aparecem sem avisar, falam alto e fazem vergonha em público.
Naquele domingo teve festa no arraial. Coreto enfeitado, bandeirinha tremulando e Zeca escalado pra animar o povo antes do leilão do frango assado. Chegou cedo, sentou no banco e começou o ritual de sempre: conversa com a viola.
— Hoje comporta, viu? — falou baixinho. — Não me desmoraliza.
A viola não respondeu, mas deu um estalo seco numa corda, só pra deixar claro que não prometia nada.
Quando Zeca puxou a primeira moda, errou a entrada. Não feio, não. Errinho elegante, daqueles que só quem toca percebe. A viola, porém, achou pouco e resolveu complementar: soltou um som tão bonito que parecia ter sido planejado.
O povo bateu palma.
Zeca olhou pra viola desconfiado.
Na segunda música, ele caprichou. Tocou certinho, cantou afinado, fez até firula. A viola, ingrata, desafinou no meio, mas terminou com um acorde tão redondo que fez o coreto vibrar.
Palmas de novo. Mais fortes.
Uma senhora da frente comentou:
— Essa viola é que é boa, viu?
Zeca fingiu que não ouviu, mas ouviu. Mineiro ouve até pensamento.
Na terceira, a coisa ficou estranha. Zeca errou de propósito, só pra testar. A viola foi lá e acertou sozinha. O povo riu, bateu palma e alguém gritou:
— Toca de novo, viola!
Não foi “toca de novo, Zeca”.
Foi viola.
Zeca parou, apoiou o instrumento no colo e falou no microfone:
— Gente, eu só tô aqui segurando ela pra não sair andando sozinha.
Risada geral.
No fim do show, chamaram Zeca pra mais uma. Ele recusou.
— Não dá mais, não. Já toquei demais hoje.
A viola, em resposta, soltou um último acorde bonito, desses de despedida.
Aplauso de pé.
Depois, enquanto guardava o instrumento, um rapaz elogiou:
— Seu Zeca, o senhor toca bem demais.
Zeca sorriu torto:
— Eu toco, meu fio. Mas quem tem talento mesmo é ela. Eu só dou carona.
E em Minas, fi…
quando até a viola brilha mais que o dono,
é sinal de que a parceria tá dando certo —
mesmo que o ego saia desafinado.