Causos de Minas

Zeca Violeiro e a Afinação Feita no Olhômetro

  • 24 de janeiro de 2026
  • 0

Quando a tecnologia apita, mas quem manda mesmo é o ouvido e a teimosia boa do interior.

Zeca Violeiro e a Afinação Feita no Olhômetro

Zeca Violeiro nunca confiou muito em tecnologia.
Pra ele, coisa que precisava de pilha já começava errada, porque música boa, segundo dizia, vinha do ouvido, do peito e de um tantinho de teimosia.

— Trem que apita não sente — ele falava. — E sem sentir, não tem música que preste.

A viola de Zeca, velha companheira de muitas noites mal dormidas, já conhecia esse discurso de cor. Braço gasto, madeira marcada de sol e chuva, e umas cicatrizes que ninguém sabia dizer se eram de queda ou de raiva. Aquela viola não afinava fácil. Afinava quando queria.

Numa tarde de sábado, enquanto Zeca ajeitava a viola no colo, apareceu o sobrinho vindo da cidade. Moço estudado, camiseta limpa, celular caro no bolso e um afinador eletrônico pendurado no chaveiro, como se fosse medalha.

— Tio, deixa eu afinar isso aqui pro senhor? — perguntou, já puxando o aparelho.

Zeca olhou, franziu a testa e respondeu:
— Afinar ela, fio? Essa viola já passou por três enchentes, duas festas de santo e um casamento mal resolvido. Você acha mesmo que esse trem sabe mais dela do que eu?

O sobrinho riu, mas insistiu. Ligou o afinador, que começou a piscar luz vermelha, laranja, amarela… tudo, menos verde.

— Tá tudo fora, tio.

Zeca puxou a corda, encostou a viola no peito, fechou um olho e bateu de leve no tampo.
— Agora não tá mais, não.

O afinador apitou nervoso, vermelho de novo, quase ofendido.

— Esse aparelho tá estressado — decretou Zeca. — Deve ser coisa da cidade.

Mesmo assim, deixou o sobrinho regular tudo “certinho”. Quando terminou, o rapaz sorriu orgulhoso:
— Pronto. Agora tá afinada de verdade.

Zeca tocou duas notas e fez uma careta tão triste que parecia ter perdido parente.
— Ô dó… arrancou a alma dela, fio.

Afinou de volta do jeito dele. Um tiquinho pra lá, outro pra cá, no ouvido e na experiência. Tocou outra vez. A viola respondeu torta, mas cheia de intenção, como quem diz: “agora sim”.

Nesse meio-tempo, um vizinho que passava parou na cerca pra ouvir.
— Uai, Zeca… hoje tá bão, viu?

Zeca nem respondeu. Só apontou com o queixo pro afinador em cima da mesa.
— Tá vendo aquele trem ali? Ele entende de número. Eu entendo é de vontade.

À noite teve roda de gente no terreiro. Um pediu moda, outro pediu cateretê, outro pediu pra parar um pouco que tava conversando. Zeca tocou de tudo, errando aqui, inventando ali, mas sempre com aquela segurança de quem sabe que a viola pode até não obedecer, mas acompanha.

O afinador ficou esquecido na mesa, piscando sozinho, como quem queria participar da conversa e ninguém dava ideia.

No fim, o sobrinho comentou:
— Tio, não ficou afinado como manda o manual… mas ficou bom demais.

Zeca sorriu, guardou a viola e respondeu:
— Pois é, fio. Música não é pra agradar máquina. É pra convencer gente.

E em Minas, fi…
tem coisa que não se mede em Hertz nem em luzinha verde.
Se o coração entende, já tá afinado o suficiente.

Gostou? Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *