O Mistério da “Ponte que Não Tinha Rio” em Brejo Alto
- 16 de março de 2026
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Lá em Brejo Alto, cidadezinha que fica pendurada num morro onde o vento faz a curva e volta para pedir informação, aconteceu um caso que até hoje o
Lá em Brejo Alto, cidadezinha que fica pendurada num morro onde o vento faz a curva e volta para pedir informação, aconteceu um caso que até hoje o
Lá em Brejo Alto, cidadezinha que fica pendurada num morro onde o vento faz a curva e volta para pedir informação, aconteceu um caso que até hoje o povo conta no balcão da venda do Seu Tião.
No meio da praça principal, a prefeitura resolveu construir uma ponte de madeira, toda enfeitada, com corrimão trabalhado e pintura caprichada. O problema é que, debaixo da ponte, não passava rio, não passava córrego e não passava nem enxurrada de chuva. Era uma ponte no seco.
O povo da cidade, que de bobo não tem nada, começou a estranhar. — “Uai, Tião, pra que essa ponte se não tem nem um palmo d’água ali?” — perguntava o compadre Zé. O Tião, limpando o balcão com um pano que já viu dias melhores, respondia: — “Dizem que é pra embelezar. Coisa de gente da capital.”
A ponte ficou lá. E o povo, em vez de reclamar, começou a dar serventia pro “uai”. Os namorados iam pra cima da ponte pra ver o pôr do sol. Os velhinhos sentavam na beira da ponte pra ver quem passava na rua. E o Caramelo (sim, o primo daquele lá de Pedra Dourada) gostava de dormir debaixo dela, porque era o lugar mais fresco da praça.
Um dia, um turista de terno, vindo de Belo Horizonte, parou o carro, olhou a ponte, olhou o chão seco e deu uma risada de deboche: — “Mas que povo engraçado! Construíram uma ponte onde não tem rio. Isso é falta de planejamento ou é doidice mesmo?”
O Seu Juquinha, que tava sentado num banco de praça descascando uma laranja com um canivete que brilhava no sol, nem levantou a cabeça. Só disse: — “Moço, o senhor tá enganado. O rio passa ali sim.” O turista riu mais alto: — “Onde? Eu só vejo terra e calçada!”
O Juquinha parou o canivete, olhou pro horizonte e falou mansinho: — “O rio que passa debaixo dessa ponte é o rio do tempo. Ele corre sem fazer barulho, não molha o pé, mas carrega a vida da gente embora se a gente não parar pra olhar.”
O turista ficou mudo. Guardou o deboche no bolso, subiu na ponte e ficou lá, uns dez minutos, só vendo o tempo passar devagar, do jeito que só Minas sabe fazer.
Desde esse dia, ninguém mais pergunta pra que serve a ponte de Brejo Alto. Todo mundo sabe: é o único lugar do mundo onde você pode sentar na beira do rio sem medo de se molhar, só pra ver a vida passar devagarzinho, num passo de prosa de mineiro.
Porque em Minas é assim: Se não tem água pra fazer o rio, a gente usa a paciência.