Causos de Minas

O causo do relógio que não obedecia

  • 11 de janeiro de 2026
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Um causo mineiro sobre tempo, teimosia e um relógio que resolveu andar do próprio jeito

O causo do relógio que não obedecia

Lá pras bandas de São Bento do Fundo do Vale morava dona Custódia, mulher direita, organizada e com fama de nunca se atrasar pra nada. Missa, visita, novena, café da tarde… tudo tinha hora certa.

O orgulho maior dela era um relógio de parede, desses grandes, com pêndulo e tudo. Presente do finado marido, seu Alcebíades. O relógio ficava bem na sala, fazendo aquele tic… tac… respeitoso, como se mandasse no tempo da casa.

Dona Custódia confiava mais naquele relógio do que em gente.

Um dia, porém, começaram os comentários.

— Uai, Custódia, cê chegou cedo demais hoje — disse a vizinha na missa.

— Cedo nada, mulher. Cheguei foi na hora — respondeu, batendo o pé.

Mas o padre ainda nem tinha colocado a estola.

No outro dia, ela chegou atrasada no café da comadre. No outro, perdeu o começo da novela. No outro, colocou feijão no fogo e ele virou carvão.

— Esse mundo tá muito desregulado — resmungava ela. — O povo não respeita mais horário.

Até que o sobrinho, menino estudado da cidade, veio visitar e reparou numa coisa curiosa: o relógio da sala tava pendurado torto, levemente inclinado pra esquerda.

— Tia, esse relógio tá meio caído — falou.

— Tá nada, menino. Ele sempre foi assim.

O sobrinho subiu numa cadeira, endireitou o relógio e deu corda.

No dia seguinte, dona Custódia acordou assustada.

— Nossa Senhora, perdi a hora!

Correu, se arrumou, saiu esbaforida… e chegou cedo demais de novo.

Foi aí que entenderam o mistério.

O relógio, torto daquele jeito, atrasava um pouquinho a cada hora. Já tinha criado o próprio fuso horário da casa. Todo mundo vivia no “tempo da dona Custódia”, menos o resto do mundo.

Quando endireitaram o relógio, o tempo voltou a andar certo… mas a dona Custódia nunca mais se acertou com ele.

Depois disso, ela decretou:

— Relógio bom demais não presta. Prefiro o errado que já conheço.

E até hoje, lá em São Bento, quando alguém chega fora de hora, o povo comenta baixinho:

— Deve tá vivendo no horário do relógio da dona Custódia.

Porque em Minas, a gente sabe:
tempo certo é aquele que não aperta o coração.

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