Causos de Minas

Quando o Fusca subiu a ladeira de ré

  • 23 de janeiro de 2026
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Na ladeira mais teimosa da região, um Fusca sem gasolina provou que, no interior, até descer de ré vira história pra contar rindo.

Quando o Fusca subiu a ladeira de ré

Depois do dia em que o Fusquinha morreu seco na estrada e precisou da ajuda do Gasolina, Seu Zé Lombriga jurou de pé junto:

— Agora eu aprendi. Nunca mais deixo acabar a gasolina.

Mentira.

No domingo seguinte, resolveu ir visitar um compadre que morava “logo ali”, depois da ladeira mais inclinada da região — uma subida tão braba que até pensamento subia com dificuldade.

O Fusca vinha em segunda, roncando mais que porco em dia de lavagem. Seu Zé, confiante, conversava com o carro:

— Vai, meu fio… cê já subiu coisa pior.

Gasolina ia no banco do carona, olhando sério pra frente, como quem não aprovava aquela decisão.

No meio da ladeira, o inevitável aconteceu.

O Fusca tossiu.
Engasgou.
Pensou.
E morreu.

Silêncio total.

Seu Zé pisou no freio.
Nada.

— Uai…

Foi quando o carro começou a fazer o que nenhum Fusca deveria fazer naquela situação: descer.

— Ô Gasolina… segura aí, fio!

Gasolina latiu, mas não tinha carteira de motorista.

O Fusca começou a descer de ré, bem devagar, respeitoso até. Seu Zé tentava virar o volante como se isso fosse ajudar.

— Calma, calma… vamo com jeito…

A ladeira parecia interminável. No meio do caminho, um vizinho apareceu no barranco e gritou:

— Zé! Seu carro tá subindo de ré!?

— Tá não! — respondeu ele, nervoso. — Tá descendo errado!

O Fusca chegou lá embaixo sem bater, sem capotar e sem perder a dignidade — coisa rara. Parou mansinho, como se tivesse feito aquilo a vida inteira.

Seu Zé desligou o carro, respirou fundo e ficou um tempo em silêncio.

Gasolina desceu, deu a volta, cheirou a roda e sentou na sombra, decepcionado.

— Eu te falei — parecia dizer o olhar.

O vizinho desceu rindo:
— Nunca vi isso, não… carro subir ladeira de ré!

Seu Zé respondeu sério, com orgulho ferido:
— Esse Fusca não sobe ladeira… ele reconsidera.

Depois de um tempo, apareceu outro compadre com um galão de gasolina. Abasteceram, o Fusca pegou de primeira — como se nada tivesse acontecido.

Antes de sair, Seu Zé olhou pro cachorro e falou:
— Da próxima vez, cê dirige.

Gasolina abanou o rabo, entrou no carro e sentou no banco como quem já tinha passado em mais um teste de paciência.

E em Minas, fi, é assim:

  • tem carro que sobe,
  • tem carro que desce,
  • e tem carro que ensina humildade.

Porque quem anda com Fusca velho aprende cedo:
não é o destino que manda… é a ladeira.

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