Seu Zé Lombriga, o Fusquinha e o cachorro que sabia empurrar
- 23 de janeiro de 2026
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Na estrada de terra, um Fusquinha sem gasolina, um dono sem juízo e um vira-lata caramelo provaram que, no interior, até perrengue vira motivo de riso.
Na estrada de terra, um Fusquinha sem gasolina, um dono sem juízo e um vira-lata caramelo provaram que, no interior, até perrengue vira motivo de riso.
Seu Zé Lombriga não ganhou esse apelido à toa. Era magro, comprido e vivia dizendo que comia pouco “pra economizar”. Economizava tanto que até o Fusquinha dele parecia seguir a filosofia.
O carro era um Fusca azul desbotado, ano que ninguém mais lembrava, que fazia mais barulho parado do que andando. Mas Seu Zé defendia:
— Esse carro não quebra. Ele só descansa no meio do caminho.
Naquele domingo, ele resolveu ir até a cidade comprar querosene, sal grosso e ver se o jogo do bicho tinha dado em alguma coisa. Levou junto o companheiro inseparável: um vira-lata caramelo, magro que nem o dono, chamado Gasolina.
O nome não era ironia à toa.
— Se eu esquecer de abastecer, pelo menos você lembra — dizia Seu Zé, conversando com o cachorro como se fosse gente.
Pois esqueceu.
Na volta, já na estrada de terra, o Fusquinha começou a engasgar. Tossiu, deu um soluço, mais dois… e morreu ali mesmo, no meio do poeirão.
Seu Zé tentou dar partida.
Nada.
Tentou de novo.
Nada.
Olhou pro marcador:
— Uai… mentira que acabou…
Gasolina desceu do banco, cheirou o chão, olhou pro dono com aquela cara de “eu avisei sem avisar”.
— Ô Gasolina… cê não latiu, não?
Silêncio. Só o vento e um bem-te-vi julgando de longe.
Seu Zé abriu o capô, como se fosse resolver alguma coisa olhando. Coçou a cabeça, suspirou e decretou:
— Pois é… vamo empurrar.
E foi empurrando. Um passo, dois, três… e nada. O Fusca parecia mais pesado parado do que quando andava.
— Gasolina, ajuda aqui, fio.
E não é que o cachorro ajudou?
O danado foi pra trás do carro e começou a empurrar com as patas dianteiras, fazendo mais força de intenção do que de músculo. A cena era tão séria que quem passasse acreditava.
Seu Zé riu sozinho:
— Tá vendo? Até o cachorro tem mais juízo que eu.
Depois de um bom tempo, apareceu um vizinho de moto.
— Uai, Zé, que foi isso?
— Acabô a gasolina.
O homem olhou pro cachorro, depois pro dono:
— E o cachorro chama Gasolina por quê?
Seu Zé respondeu, sem piscar:
— Pra eu nunca esquecer… mas esqueci.
Riram os dois.
O vizinho foi buscar combustível, o Fusca pegou de primeira, como se nada tivesse acontecido. Antes de entrar no carro, Seu Zé abaixou, fez carinho no cachorro e falou sério:
— Da próxima vez, cê late mais alto, viu?
Gasolina abanou o rabo, entrou no carro e sentou no banco como quem diz: “o erro foi seu, mas eu empurrei”.
E em Minas, fi, é assim:
carro acaba gasolina,
dono acaba juízo,
mas a história nunca acaba —
porque sempre tem alguém pra rir depois.